segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

RESENHA: CANDIDO, Antonio, 1918- A literatura e a formação do homem In: Textos de intervenção; seleção apresentações e notas de Vinicius Dantas. São Paulo: Duas cidades Ed.34, 2002. 392 p. ( Coleção Espírito Crítico)


  O texto “A literatura e a formação do homem”, do autor Antonio Candido resulta de uma conferência pronunciada na XXIV Reunião Anual da SBPC (São Paulo 1972) e está dividido em três partes, nas quais apresenta elementos que fundamentam a tese apresentada pelo autor de que a literatura humaniza o homem. Para tal, o autor inicia abordando conceitos de função e estrutura no contexto das obras literárias, expondo ainda funções encontradas na literatura tais como a função psicológica, a função formadora e a função social, exemplificando cada uma destas no decorrer do texto.
        “Que incompatibilidade metodológica poderia existir entre o estudo da estrutura e da função?” (CANDIDO, 2002, p.77)
         A primeira parte do texto está voltada ao estudo do conceito de função e estrutura no âmbito da literatura. Nesse sentido, o autor afirma que os estudos modernos, não se ocuparam muito em estudar a função da obra literária, haja vista estes estudos se inclinarem à estrutura da mesma, consistindo em olhar os recursos que constituem a obra, partindo da visão mais generalizada, situando-a no contexto de modelos, o estudo da função, segundo Candido centraria sua expectativa em desvendar aspectos internos relacionados a sua singularidade, à função maior da literatura,  ao papel de uma determinada obra, primando por perceber qual a visão do autor, e responder questões acerca da maneira específica de sua escrita que exprime o seu modo de ver e pensar a realidade no qual está inserido,  e que serviu de base para tal produção. Candido segue mostrando que o estudo da função da obra literária ultrapassa seus limites estruturais, seus elementos de organização, encontrados no plano estrutural, alcançando o valor, as intenções que a obra tem para o público – leitor – de despertar, emocionar, sensibilizar ou até mesmo revoltar, dependendo da ficção e  da fantasias que esta traz consigo,
         Na segunda parte do texto o autor faz apontamentos sobre a função humanizadora da literatura, que além de exprimir o homem, influencia de maneira significativa na sua formação. Nessa perspectiva, o autor volta  seus esforços em apresentar duas funções conferidas à literatura: a função psicológica e a função formadora, A primeira está relacionada com uma característica própria do ser humano que se refere à necessidade que o homem tem de ficção e fantasia, que, nas palavras do autor, podem ser observadas lado a lado com as necessidades mais elementares do ser humano, como algo universal e involuntário, qie independe de classe  social, cultura, raça ou qualquer outro fator externo ou aspecto que explique o homem na sua diversidade.
       Conforme o autor, o leitor de uma obra literária , não está isento de sofrer influencias das diferentes informações que esta traz, provocando diversas reações que estão fora do controle de quem faz  a leitura, daí a razão do autor expor a segunda função “formadora“ que confere à literatura um caráter formativo, distinto da pedagogia oficial mas, em todo caso, educativo, tanto quanto a escola  e a família, instituições atuantes na formação do indivíduo. O ponto de vista de um autor, mesmo que de maneira implícita, defendido em uma obra, contribui para novos olhares sobre a realidade, com isso se este se propõe a propagar ideologias das classes dominantes ou defender interesses das classes consideradas desfavorecidas, o leitor de alguma forma terá uma nova postura, senão pelo menos questões a serem pensadas, que ainda não haviam sido desencadeadas. Esse não controle das inúmeras informações e a complexidade encontrada na literatura, segundo Candido, pode justificar as atitudes ambivalentes de alguns educadores que ora sentem-se fascinados pela força humanizadora da literatura, ora amedrontados pela sua infinita riqueza de informações, que pervertem e/ou subvertem o leitor. No entanto, o que o autor defende é que a literatura, não corrompe nem edifica, ela humaniza o homem de maneira plena.
         Na terceira e última parte do texto  o autor fala sobre uma outra função da literatura, a social, que resulta da relação estabelecida pelo leitor entre ficção e a realidade. A literatura resulta de dado momento histórico, assim representa a realidade de diferentes épocas, a partir do olhar do autor, que pode desempenhar um papel humanizador ou até alienador. O leitor, por sua vez, vai estabelecendo a relação no decorrer da leitura com a realidade em que está inserido, mas pautado em uma concepção de outrem. Para exemplificar essa função social, o autor faz referencia ao regionalismo brasileiro, à luz de escritos de dois autores, Coelho Neto e Simões Lopes Neto que podem representar de modo claro a dualidade entre a postura dos regionalistas dessa época. Segundo o autor, alguns regionalistas adotaram de modo autêntico a linguagem regional, o que acentuava as diferenças gritantes entre o discurso do autor com seu modo convencional e as falas dos personagens com características próprias da região, enquanto outros faziam a mesclagem entre a linguagem “culta” e a pecualiar, através do qual o sujeito rústico e o civilizado se anulam um no outro, no sentido de não sobressair um ao outro.
        Portanto os apontamentos feitos pelo autor no decorrer do texto são muito pertinentes ao caráter humanizador da literatura, considerando que não é conferido à obra literária um olhar que ultrapasse os limites estruturais, prende-se a atenção nos aspectos constituintes, deixando à margem o mais elementar da literatura, que diz respeito à capacidade de tornar o homem cada vez mais humano, que é considerada pelo autor a função maior desse gênero.
      Pode-se levantar a seguinte questão acerca da posição do autor: Como atribuir uma importância à gênese da obra literária, se os elementos que a constitui é que facilita a sua compreensão? Não se trata de dar um caráter reducionista à posição do autor, até porque suas afirmações fazem todo sentido, mas sobre a importância de se pensar a obra a partir desses dois princípios, que servem de base para a sua produção. A produção literária requer intenções e valores, ou seja, um ponto de origem, mas precisa ser retratada, aí que entra os elementos estruturais que permitem que esta seja produzida com caráter específico,  que, por sua vez, vai diferenciá-la de outras. É necessário que haja equilíbrio, embora esteja claro que em todo caso  a função maior da literatura é tocar o ser humano, é o seu sentido na totalidade que provoca no homem  a sensibilidade. Não se deve ler uma obra literária buscando identificar a sua estrutura, nem tampouco perder toda riqueza que esta traz no seu interior limitando a olhar tais aspectos, pois isso implica na fruição do livro, que resulta de uma leitura espontânea, atenta, e porque não dizer “gostosa’ de se praticar.
      O autor nos aponta novas perspectivas de pensar a literatura, sobretudo no contexto escolar, embora não tenha feito menção em nenhum momento do seu texto, se parar pra pensar na forma como a literatura tem sido trabalhada na escola, quais os objetivos que norteiam essas práticas, não precisaria fazer nem um estudo aprofundado para concluir que a literatura tem servido de ponte para estudar temáticas externas às funções expostas pelo o autor.
       Deve-se considerar que a escola, um ambiente em que todos os indivíduos deveriam ter contato com esse gênero, não consegue com magnitude responder a essa necessidade, pois quando coloca o aluno frente à literatura, busca trabalhar aspectos mais estruturais, referentes a inúmeras competências, que, na maioria das vezes, encontram-se externas às suas próprias funções.
      È cabível ressaltar que esse texto não é de fácil entendimento, haja vista requerer em vários momentos outras  leituras, que por sinal, não são indicadas pelo autor, deixando o leitor por vezes, em momentos de apuros, a linguagem utilizada não é tão complexa, mas considerando os horizontes de expectativas do leitor, torna-se árduo e lento o processo de absorção dos mecanismos explicativos utilizados pelo autor. Todavia, deve-se pensar ao fazer tal afirmação, e primeira instância o público alvo dessa produção,  se for direcionadas a pessoas que já tem conhecimento desse olhar mais elevado sobre a literatura e sua função humanizadora, vai ser uma leitura demasiadamente simples.
        De todo modo, esse livro nos traz novos horizontes acerca da literatura e seu poder de tornar o homem dada vez mais humano, essas observações  catadas acima, tornam –se mínimas, olhando  obra como um todo que traz elementos novos, sobre o processo  de fruição de um texto literário, servem como norte para o possível trabalho com literatura em sala, ou para estudos voltados a identificar as diferentes funções encontradas no interior do texto literário, seja clássico ou não, e a  sua capacidade de atuar sobre o indivíduo.

Raiolene Matos Leal

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